INFLUÊNCIA DA DENSIDADE DA SUPERFÍCIE DE APOIO NA DINÂMICA POSTURAL DE INDIVÍDUOS COM PARALISIA

(Por: Alex Silveira em 27/12/2012 às 18:23:24)

INFLUÊNCIA DA DENSIDADE DA SUPERFÍCIE DE APOIO NA DINÂMICA POSTURAL DE INDIVÍDUOS COM PARALISIA CEREBRAL DURANTE A REALIZAÇÃO DE UMA TAREFA DE MANUSEIO

THE SURFACE DENSITY INFLUENCE ON POSTURAL DYNAMICS SUPPORT IN INDIVIDUAL WITH CEREBRAL PALSY DURING A HANDLING TASK PERFORMANCE

Maria Luiza da Costa Dechandt; Lígia Maria Presumido Braccialli, Ana Carla Braccialli
Campus Marília - Faculdade de Filosofia e Ciências - Fisioterapia mlmaluka@hotmail.com, - bolsista PIBIC/CNPq
Palavras Chaves: Mobiliário Adaptado; Paralisia Cerebral; Tecnologia Assistiva.
Key Words: Adapted Furniture; Cerebral Palsy; Assistive Technology.

 

1. INTRODUÇÃO
O acesso à tecnologia assistiva (TA) pode contribuir para maximizar as potencialidades de indivíduos com deficiências, melhorar a independência funcional, aumentar a interação social e evidentemente, melhor a qualidade de vida dessas pessoas e das pessoas que os cercam.
Entre os inúmeros dispositivos considerados como TA destacam-se os mobiliários utilizados em sala de aula para o posicionamento do aluno com deficiência física, principalmente aquele com diagnóstico de paralisia cerebral (PC).
Atualmente a utilização de mobiliários adequados para alunos com paralisia cerebral consiste em preocupação entre os professores de educação especial e os profissionais da equipe de reabilitação, pois o sentar independente facilita a realização de metas educacionais e sociais.
Apesar, de nos últimos anos alguns autores terem estudado a importância da adaptação do mobiliário para o desempenho funcional do usuário poucos estudos tem abordado como a flexibilidade do assento da cadeira pode interferir na dinâmica postural do aluno com PC.

 

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Um projeto de adequação postural diz respeito à seleção de recursos que garantam posturas alinhadas, estáveis e com boa distribuição do peso corporal (BERSCH, 2005). Adaptações simples ajudam na obtenção da postura adequada para um melhor aprendizado. Assim, crianças com disfunções motoras podem obter muitos ganhos funcionais como: a facilitação de movimentos, para o uso mais  adequado das mãos; melhor e maior campo visual e coordenação visomotora, melhor atenção e concentração e também a melhor condição de aprendizado (BERSCH, 2007).
Alguns estudos partiram da importância de adaptar mobiliários com o propósito de auxiliar na melhora das habilidades motoras e diminuir a ocorrência de lesões em crianças com PC.
Dupuis et al (1991) comparou dois diferentes sistemas de assentos  para crianças com PC moderada, um modelo novo que incluía suportes torácicos e sacrais ajustáveis e um modelo convencional e concluiu que o novo sistema de assento melhorou a postura sentada das crianças.
Oliveira (2007) analisou o desempenho de alunos com PC espástica durante a realização de atividades em dois tipos de assentos em relação a distribuição de pressão. A autora conluiu que o tipo de assento interferiu no desempenho da atividade da criança. Além disso, foi identificado em alguns participantes durante as atividades propostas maior pico de pressão no assento de madeira e maior área de contato no assento de lona.
Braccialli et al (2005) que com a utilização de uma mesa para apoio dos braços favoreceu a manutenção das curvaturas fisiológicas da coluna vertebral; o apoio para os pés contribuiu para a deterioração da curvatura lombar piorando a postura sentada e o uso do abdutor para as pernas não interferiu no posicionamento da coluna vertebral das crianças com PC analisadas.
Kavalco (2002) verificou em seu estudo de orientação postural aos pais de crianças com PC que uma cadeira adaptada, proporciona uma melhor funcionalidade para a criança, facilita os cuidados dos pais com a criança e também previne deformidades ortopédicas.
Val et al (2005) pôde concluir em seu estudo que a adequação da postura corporal das crianças com alterações sensório-motoras favoreceu, de forma significativa, o desenvolvimento e adequação do sistema estomatognático quanto à postura e a funcionalidade.
Braccialli  et al (2008) encontraram que a flexibilidade da superfície de assento da cadeira interfere no tempo despendido por alunos com PC espástica durante a execução de uma tarefa de manuseio de um objeto na posição sentada. Para os autores, o assento fornece uma base instável que dificulta o desempenho do aluno durante atividades realizadas com os membros superiores.

 

3 OBJETIVO
Registrar e analisar o mapeamento da pressão na região glútea e o equilíbrio estático durante a execução de uma tarefa de manuseio na posição sentada.

 

4 METODOLOGIA
O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Faculdade de Filosofia e Ciências (FFC) –UNESP de Marília com o parecer nº 2801/2005.
4.1 Participantes
Participaram do estudo onze indivíduos de ambos os gêneros  com diagnóstico de paralisia cerebral espástica, com idade entre 10 e 28 anos, com classificação entre grau I e V pelo sistema de classificação Gross Motor Function System Classification (GMFSC).
Os participantes foram esclarecidos sobre os objetivos propostos  e seus responsáveis assinaram o Termo de Consentimento Livre e Informado. Além disso, os participantes deveriam:

1) apresentar quadro de espasticidade;

2) possuir habilidade para segurar e deslocar um objeto pré-determinado;

3) compreender ordens simples.

Foram excluídos indivíduos com déficits acentuados de acuidade visual.
4.2 Local da pesquisa
A pesquisa foi realizada no Laboratório de Análise do Movimento (LABAM) da FFC.
4.3 Equipamentos e materiais
Os seguintes equipamentos e materiais foram utilizados:

(1) computador com placa de captura de vídeo;

(2) mobiliário adaptado com assento rígido e de lona;

(3) manta com sensores de pressão Tekscan Conformat modelo 5330;

(4) interface  – USB handle 101-2034;

(5) calibrador a vácuo – bladder – VB - 5A;

(6) Programa Conformat Research 5.8 para captura e análise dos dados de pressão
4.4  Procedimentos para coleta de dados
Cada voluntário foi posicionado sentado em uma cadeira adaptada que tinha fixado sobre seu assento  uma manta de sensores de pressão utilizada neste estudo, Conformat da marca  Tekscan, possui 1.024 sensores dispostos em 32 colunas e 32 fileiras, possui um tamanho de 530 milímetros por 617 milímetros, totalizando 5 sensores por centímetros (cm) ao quadrado.
O estudo foi realizado em 2 situações experimentais: (a)assento rígido de madeira;(b) assento flexível de lona. O inicio de cada  experimento foi precedido por um tempo de 3 minutos, tempo necessário para que ocorressem os ajustes posturais na posição sentada (MYHR et al, 1995).
Na mesa foram demarcados dois pontos distintos: (a) inicial e (b) final. O participante foi orientado a deslocar o objeto: 1) do ponto inicial até o ponto final – foi denominando movimento de ida; 2) do ponto final até o ponto inicial – foi denominado movimento de retorno.
O estudo foi randômico, por sorteio, o qual era realizado antes da coleta de dados e anotado na ficha do participante, para que fosse diminuída a porcentagem de erros, e para que os possíveis erros que pudessem ocorrer não se devessem à aprendizagem da tarefa  em determinado tipo de assento (NWAOBI et al, 1983).
4.5 Procedimentos para análise de dados
A análise dos sensores de pressão foi realizada pelo seu respectivo programa no computador, e os resultados foram comparados com os tipos de assento utilizados para a realização das tarefas.
Foram usados os valores da média do pico de pressão em milímetros de mercúrio (mmHg); média da área de contato em centímetros quadrado. Esses valores foram obtidos em cada tipo de assento utilizado.
O cálculo do deslocamento do centro de pressão foi realizado por meio das funções existentes no software Conformat Research 5.8. Os dados obtidos foram exportados para o programa Microsoft Excel e os seguintes parâmetros foram analisados: o comprimento total da trajetória do deslocamento do centro de pressão (CT); a amplitude dos deslocamentos do centro de pressão (CP) nos sentidos ântero-posterior (AP) e médio-lateral (ML).
Devido à natureza dos dados foi realizada a análise estatística descritiva por meio de média, desvio-padrão, mediana,  coeficiente de variação,  valor máximo e valor mínimo. A análise da influência da flexibilidade do assento foi realizada por meio de teste estatístico não-paramétrico, Teste de Wilcoxon. O valor adotado foi p• 0,05.

 

5 RESULTADOS
Ao analisar os dados do pico de pressão durante o movimento ida os valores encontrados para o assento de lona foram: média 167,469 ± 86,909 mmHg; mínimo 45,766 mmHg e máximo 316,242 mmHg. No assento de madeira: média 270,754 ± 126,635 mmHg; mínimo 266,865 mmHg e máximo 525,440 mmHg (p = 0,020). No movimento de retorno os valores do assento de lona foram: média 157,251 ± 92,239 mmHg; mínimo 42,255 mmHg; máximo 347,517 mmHg. No assento de madeira: média 302,604 ± 137,346 mmHg; mínimo 138,952 mmHg e máximo 591,272 mmHg (p = 0,009).
Para a área de contato durante o movimento ida os valores encontrados para o assento de lona foram: média 633,464 ± 254,464 cm ; mínimo 318,580 cm e máximo 1091,376 cm . No assento de madeira: média 566,460 ± 207,777 cm ; mínimo 318,666 cm e máximo 944,423 cm (p = 0,016). No movimento de retorno os valores para o assento de lona foram:  média 647,906  ±  251,984 cm; mínimo 324,203 cm ; máximo 1101,349 cm . No assento de madeira: média 573,438 ± 212,467 cm ; mínimo 326,595 cm e máximo 957,804 cm (p = 0,004).
Na análise dos dados da trajetória total do deslocamento do centro de pressão durante o movimento ida os valores encontrados no assento de lona foram: média 4,37 ± 3,81 cm; mínimo 0,83cm e máximo 14,07 cm. No assento de madeira: média 4,64 ± 3,24 cm; mínimo 1,60 cm e máximo 10,91 cm (p=0,6377). No movimento de retorno os valores no assento de lona foram: média 2,74 ± 1,49 cm; mínimo 1,14 cm; máximo 6,17 cm. No assento de madeira: média 3,42 ± 3,20 cm; mínimo 1,22 cm e máximo 12,80 cm (p=0,4648).
Os dados da variável amplitude latero-lateral do deslocamento do centro de pressão no movimento ida os valores para o assento de lona foram: média 0,60 ± 0,56 cm; mínimo 0,19 cm e máximo 1,94 cm. No assento de madeira: média 1,15 ± 1,08 cm; mínimo 0,32 cm e máximo 3,55 cm (p=0,0674). No movimento de retorno os valores para o assento de lona foram: média 0,53 ± 0,28cm; mínimo 0,21 cm; máximo 1,16 cm. No assento de madeira: média 0,75 ± 0,82 cm; mínimo 0,29cm e máximo 3,12 cm (p=0,4648).
Nos dados da variável amplitude antero-posterior do deslocamento do centro de pressão no movimento ida os valores para o assento de lona foram: média 0,77 ± 0,45 cm; mínimo 0,13 cm e máximo 1,52 cm. No assento de madeira: média 0,87 ± 0,49 cm; mínimo 0,40 cm e máximo 1,86 cm (p=0,6377). No movimento de retorno os valores para o assento de lona foram: média 0,77 ± 0,45cm; mínimo 0,13 cm; máximo 1,52 cm. No assento de madeira: média 0,87 ± 0,49 cm; mínimo 0,40cm e máximo 1,86 cm (p=0,3223).

 

6 DISCUSSÃO
Quando comparados os dados referente ao pico de pressão nos tipos de assentos analisados foi possível notar que os assentos com diferente flexibilidade apresentaram  diferença estatística significante. Assim, verifica-se que o tipo de material utilizado no assento interfere na distribuição da pressão na região glútea em contato com o assento.
Os valores de pico de pressão no assento de madeira foi maior do que na lona o que significa que na madeira houve maior concentração de pressão em uma área específica do assento quando comparado ao assento de lona, tais achados coincidem com os encontrados por Oliveira et al (2007) quando avaliaram diferentes assentos de cadeira escolar adaptada para alunos com PC atáxica.
Na análise dos dados obtidos da comparação entre a área de contato notou-se que a média da no assento de lona foi maior no movimento de ida e volta da execução da tarefa.
O material utilizado na confecção de assentos deve minimizar o valor da pressão resultante e redistribuir a pressão uniformemente  em uma maior área de contato com objetivo de minimizar o risco de possível formação de úlceras de pressão. (APATSIDIS ET AL, 2002).
Assentos mais flexíveis  como a lona e espuma viscoelástica favorecem a maior área de contato da região glútea e posterior da coxa da criança com a superfície do assento.
Poderia ser falsamente conotada a idéia de que a maior área de contato favoreça melhor estabilidade, já que quanto maior a superfície de apoio, no caso a área de contato da região glútea e posterior da coxa com a superfície do assento, maior seria a estabilidade da criança  para  a tarefa.
Porém, Oliveira et al(2007) afirmaram que a maior distribuição de pressão no assento de lona pode indicar uma instabilidade postural e déficit de equilíbrio. Assim, a dificuldade em manter o controle postural poderia ser o responsável pelo pior desempenho dos membros superiores durante as tarefas.
No atual estudo ao comparar os resultados obtidos nos diferentes assentos constatou-se que não existia significância na diferença estatística na variável trajetória de deslocamento do centro de pressão. Portanto, pode-se afirmar que o tipo de assento utilizado durante a tarefa de manuseio não influenciou a trajetória total de deslocamento do centro de pressão.

 

7 CONCLUSÕES
Conclui-se que para o  bom desempenho acadêmico de uma criança com  PC espástica o material do assento utilizado em um mobiliário deve ser cuidadosamente escolhido. Esse material deve ter a base estável, e ser revestida por um material mais flexível para garantir a estabilidade postural da criança evitando grande gasto energético pelos esforços em manter o equilíbrio e também uma melhor distribuição da pressão para evitar lesões teciduais e desconforto para a criança.

 

 

 

REFERÊNCIAS
APATSIDIS, D.P.; SOLOMONIDIS, S.E.; MICHAEL, S.M. Pressure Distribution at the Seating Interface of Custom- Molded Wheelchair Seats: Effect of Various Materials. Arch. Phvs. Med. Rehabil. V.83, 2002.
BERSCH, R. Introdução à Tecnologia Assistiva. Porto Alegre: Artmed, 2005. disponível em:http://www.assistiva.com.br/Introducao%20TA%20Rita%20Bersch.pdf. Ac: 21/01/2009 20:02 hrs.
BERSCH, R. Deficiência Física. Atendimento educacional especializado. Cap. VIII, p. 109-23 SEESP / SEED / MEC Brasília/DF – 2007.
BRACCIALLI, L.M.P.; MANZINI, E. J.; VILARTA, R. Influência do mobiliário adaptado na variação angular da curvatura lombar de indivíduos com paralisia cerebral espástica. Fisioterapia Brasil; V. 6, n. 2, p.90-95, 2005.
BRACCIALLI, L.M.P. et al. Influência do assento da cadeira adaptada na execução de uma tarefa de manuseio. Rev. Brasileira de Educação Especial. V. 14, n. 1, Marília, 2008.
DUPUIS, C.A et al. Uma comparação biomecânica de dois sistemas de assento para crianças portadoras de Paralisia Cerebral moderada. Rev.Brasileira de ciên. e mov.V.5, p. 22-30, n.1, 1991.
KAVALCO, T.F. A eficácia de orientações de posicionamentos sentados funcionais aplicadas no domicílio para familiares de uma criança portadora de paralisia cerebral: Um Estudo de Caso. Trabalho de conclusão de Curso em Fisioterapia. Cascavel, PR, 2002.
MYHR, U. et al. Five-year follow-up of function sitting position in children with cerebral palsy. Dev. Med. Child Neurol., v.37, p.587-596, 1995.
NWAOBI, O. M. et al. Electromyographic investigation of extensor activity in cerebral-palsied children in different seating positions.Developmental Med and Child Neurol.v. 25, p.175-83, 1983.
OLIVEIRA, F. Estudo do mobiliário escolar durante o desempenho de atividades lúdicas por alunos com paralisia cerebral espástica. Tese de Mestrado. 2007.
OLIVEIRA, F. T et al. Análise da distribuição da pressão em dois tipos de assentos de cadeiras adaptados por meio da realização de atividades manuais, em um aluno com paralisia cerebral atáxica: relato de caso. Anais da II Jorn. Cient. FIB, v. 1. p. 26-27, 2007.
VAL, D.C.; LIMONGI, S.C.O.; FLABIANO, F.C.; SILVA, K.C.L. Sistema estomatognático e postura corporal na criança com alterações sensório-motoras. Pró-Fono Rev. de Atualização Científica. V. 17, n. 3. Barueri. set/dez, 2005.



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